O Exército está fazendo uma apuração interna para tentar entender por que há tantos integrantes das forças especiais, conhecidos como kids pretos, entre os militares acusados de articular uma intentona em 2022 para impedir a posse de Lula em janeiro de 2023.
As forças especiais são a tropa de elite do Exército, formada para atuar em missões confidenciais de alto risco e nas chamadas “operações de guerra irregular” – como guerrilha urbana, insurgência e movimentos de resistência. O apelido de kid preto tem a ver com a cor do gorro usado por eles. No total, 12 dos 23 militares incluídos na denúncia do procurador-geral da República, Paulo Gonet, são kids pretos.
A investigação interna deve terminar no final de abril, visa produzir um diagnóstico que ajude a evitar que algo do gênero ocorra de novo. Entre os aspectos que estão sendo analisados com lupa estão o perfil dos integrantes da tropa que estão sendo acusados, as dinâmicas internas e todo o processo de formação.
Durante o governo Bolsonaro, vários kids pretos foram chamados para assessorar o presidente, alguns dos quais trabalhando diretamente com ele no Palácio do Planalto: o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens que acabou se tornando delator; o general Mario Fernandes, que foi subordinado direto do ministro da Secretaria-Geral, Luiz Eduardo Ramos, ele próprio um kid preto. Ou Marcelo Costa Câmara, assessor especial da presidência. Cid, Fernandes e Câmara estão entre os denunciados.
O ex-presidente da República tinha admiração pelas forças especiais e, quando estava na ativa, tentou integrar essa tropa de elite. Chegou a fazer a primeira etapa da formação, como paraquedista, mas não foi aprovado nas fases seguintes.
Dos 12 kids pretos denunciados, cinco são da ativa. De acordo com o procurador-geral da República, eles participaram da operação clandestina “Copa 2022”, como era chamado entre os golpistas o monitoramento e o planejamento de uma ação que podia terminar com o sequestro e a “neutralização” de Lula, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Alexandre de Moraes.
Um dos supostos integrantes da “Copa 2022”, Rodrigo Bezerra de Azevedo, de nome de guerra coronel Azevedo, “exercia a função de chefe da seção de preparo do Comando de Operações Especiais (COPESP)”, ou seja, atuava na formação dos kids pretos.
Os assassinatos ocorreriam por “meios como explosivos, instrumentos bélicos ou envenenamento”, ainda segundo a PGR. A estratégia fazia parte do plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa a manutenção de Bolsonaro no poder após a eliminação das autoridades.
O texto que detalha a estratégia foi impresso em mais de uma ocasião pelo general Mario Fernandes dentro do Palácio do Planalto e previa expressamente a alocação de kids pretos para a consolidação do Punhal Verde e Amarelo. De acordo com a denúncia de Gonet, o plano não foi levado adiante pela oposição do então comando do Exército ao golpe.
Os kids pretos da ativa que estão denunciados são o coronel Fabricio Bastos, os tenente-coroneis Hélio Ferreira Lima, Rafael Martins de Oliveira e Rodrigo Bezerra de Azevedo e o general Nilton Diniz Rodrigues. Eles integram o terceiro núcleo da denúncia da PGR, o militar, que inclui outros membros do Exército sem histórico nas forças especiais.
Segundo Gonet, o então presidente da República tinha ciência do plano dos kids pretos. Bolsonaro nega.
“O plano foi arquitetado e levado ao conhecimento do Presidente da República, que a ele anuiu, ao tempo em que era divulgado relatório em que o Ministério da Defesa se via na contingência de reconhecer a inexistência de detecção de fraude nas eleições”, frisou o procurador-geral da República.
Seja qual for a conclusão da apuração do Exército, a atuação das forças especiais continua sendo um tópico sensível mesmo após a posse de Lula. Quase duas semanas após os ataques do 8 de janeiro, o presidente demitiu o recém-nomeado comandante do Exército, Júlio César de Arruda pela recusa em revogar a nomeação de Mauro Cid para o Batalhão de Ações e Comandos de Goiânia, o berço dos kids pretos. Arruda havia sido escolhido pelo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e foi substituído pelo atual chefe da tropa, Tomás Paiva.